segunda-feira, 8 de agosto de 2016


Ponte para Terabítia – Capítulo 3 – Katherine Paterson


Capítulo 3

Jess não tornou a ver Leslie Burke, a não ser de longe, até o primeiro dia de aula, na terça-feira seguinte, quando o senhor Turner a trouxe até a sala da 5ª série da Escola Primária de Córrego da Cotovia.
Leslie ainda estava vestida com a mesma calça cortada e a mesma camiseta azul. Calçava tênis sem meias. Quase dava para ver um ar de surpresa subindo feito uma fumacinha na sala, como o vapor que sai de um radiador de carro quando a gente tira a tampa. Todos estavam ali, sentadinhos, com suas melhores roupas de domingo de primavera. Até Jess estava usando sua única calça de veludo cotelê e uma camisa bem passada.
Pelo jeito, ela nem ligou para a reação geral. Ficou parada ali na frente deles, dizendo com os olhos “Tudo bem, pessoal, estou aqui”, em resposta aos olhares boquiabertos, enquanto a senhora Myers zanzava de um lado para o outro que nem uma barata tonta, tentando ver se descobria onde podia colocar a carteira extra. A sala era pequena e ficava no porão. E cinco fileiras, com seis carteiras cada, já a deixavam atulhada demais para ser confortável.
— Trinta e um… — resmungava sem parar a senhora Myers, por cima de seu queixo duplo. — Trinta e um… Ninguém tem mais de vinte e nove.
Acabou resolvendo colocar a carteira junto à parede lateral, lá na frente.
— Fique aqui por enquanto… ahn… Leslie. É o melhor que podemos fazer… por enquanto. Esta classe já tem muita gente.
E lançou um olhar quase agressivo em direção ao vulto do senhor Turner, que se afastava.
Leslie ficou quieta, esperando que o menino da 7ª série que tinha sido mandado lá embaixo para trazer a carteira acabasse de colocá-la na posição certa, encostada no aquecedor e debaixo da primeira janela.
Sem fazer barulho, ela a empurrou um pouco para a frente do aquecedor, e se instalou. Depois, virou-se e, mais uma vez, contemplou o resto da turma.
Na mesma hora, trinta pares de olhos focalizaram, de repente, os arranhões nos tampos das carteiras. Jess passou o dedo indicador em volta de um coração, com dois pares de iniciais, BR + SK, tentando adivinhar de quem podia ter herdado aquela carteira. Provavelmente, de Sally Koch. Na 5ª série, geralmente as meninas desenhavam muito mais aquelas coisas de corações do que os meninos. Além disso, BR devia ser Billy Rudd, e todo mundo sabia que na primavera anterior Billy estava a fim de Myrna Hauser. É claro que aquelas iniciais podiam estar ali havia muito mais tempo, e nesse caso…
— Jesse Aarons. Bobby Greggs. Distribuam os livros de Matemática. Por favor.
Ao dizer a última palavra, a senhora Myers exibiu seu famoso sorriso de primeiro dia de aula. As séries mais adiantadas costumavam dizer que a senhora Myers nunca sorria, a não ser no primeiro e no último dia de aula.
Jess levantou-se e foi até a frente.
Quando passou pelo lugar de Leslie, ela deu um sorrisinho e fez um ligeiro aceno com os dedos, sem levantar a mão, numa espécie de cumprimento. Ele a saudou com a cabeça. Não podia deixar de ficar com pena dela. Devia ser constrangedor se sentar bem na frente de todo mundo daquele jeito, ainda mais quando a pessoa está vestida de um modo esquisito no primeiro dia de aula.
E não conhece ninguém.
Foi distribuindo os livros, como a senhora Myers tinha mandado. Gary Fulcher agarrou o braço dele, quando passou:
— Vai correr hoje?
Jess confirmou, com a cabeça. Gary deu um risinho zombeteiro. “Ele acha que vai me derrotar, o cabeça-oca”. Pensando nisso, Jess sentiu um calorzinho por dentro. Sabia que estava melhor do que na primavera anterior. Fulcher podia achar que ia chegar em primeiro lugar, agora que Wayne Pettis estava na 6ª série, mas ele, Jess, tinha preparado uma surpresinha para o velho Fulcher, quando chegasse a hora do recreio. Era como se tivesse engolido gafanhotos. Estava pronto para disparar e mal conseguia esperar.
A senhora Myers distribuía os livros quase como se fosse o presidente dos Estados Unidos, de tanto que encompridava o processo com uma porção de assinaturas e cerimônias absurdas. Passou pela cabeça de Jess que ela também estava querendo adiar as aulas de verdade, o máximo possível.
Enquanto não chegava sua vez de passar adiante algum livro, Jess arrancou uma folha de caderno e começou a desenhar. Estava brincando com a ideia de fazer um livro inteiro, só de desenhos.
Precisava definir um personagem principal e fazer uma história com ele. Rabiscou uma porção de animais, tentando pensar num nome. Se tivesse um título bom, já era meio caminho andado.
O elefante elegante?
Soava bem. Dante, o elefante elegante?
Ainda melhor. Ou O caso do crocodilo crocante? Nada mal…
— Que é que você está desenhando? — perguntou Gary Fulcher, debruçado sobre a carteira dele.
Jess cobriu a página com o braço.
— Nada.
— Ah, deixe eu ver…
Jess sacudiu a cabeça.
Gary se esticou e tentou puxar a mão de Jess, para descobrir o papel.
— O caso do cro… puxa, Jess, deixe eu ver… — murmurou ele, meio rouco. — Não vai tirar pedaço.
Puxou com força o polegar de Jess, torcendo-o para trás. Jess cobriu o papel com os dois braços, enquanto pisava com o calcanhar no dedão do pé de Gary Fulcher.
— Aaai!
— Meninos! — gritou a senhora Myers, perdendo os últimos vestígios de seu sorriso mecânico.
— Ele pisou no meu dedo.
— Sente-se direito, Gary.
— Mas ele…
— Sente-se! Jesse Aarons, não quero mais nem um pio vindo do seu lugar. Se não, você fica sem recreio. Agora, todos copiando o dicionário.
Jess sentiu o rosto ficando quente.
Guardou a folha do caderno de novo dentro da carteira e abaixou a cabeça. Mais um ano inteiro daquilo. Mais oito anos daquilo. Não tinha certeza de conseguir aguentar.
* * *
Todos lancharam sem sair das carteiras. Havia mais de vinte anos que o distrito prometia um refeitório a Córrego da Cotovia, mas parecia que o dinheiro nunca dava.
Jess ficara com tanto medo de perder o recreio que até agora, mastigando seu sanduíche de mortadela, continuava de boca fechada e olhos baixos, comendo sobre o coração com as iniciais.
À sua volta, todo mundo conversava. Não deviam falar enquanto comiam, mas era o primeiro dia e até mesmo Myers Boca-de-Monstro lançava menos faíscas no primeiro dia.
— Ela está comendo mingau.
Duas carteiras adiante da dele, Mary Lou Peoples se esforçava para manter seu posto de segunda menina mais fresca da 5ª série.
— É iogurte, sua imbecil. Você não vê televisão, é? — cortou Wanda Kay Moore, a fresca número um, que se sentava logo na frente de Jess.
— Eca!
Deus do céu, será que elas não conseguiam deixar os outros em paz? Por que é que Leslie Burke não podia comer o que tivesse vontade?
Ele esqueceu que estava tentando comer em silêncio e tomou um gole de leite fazendo barulho.
Wanda Moore virou para trás, fazendo uma careta:
— Jesse Aarons, esse som é repugnante…
Ele olhou bem para a cara dela e deu outro gole baruIhento.
— Você é nojento!
Rrrrringue! O sinal do recreio. Num pulo, os meninos já se acotovelavam junto à porta, todos querendo sair primeiro…
— Sentem-se, garotos… Deus do céu!
… enquanto as meninas fazem fila para sair para o pátio.
— Primeiro, as damas.
Os meninos se agitavam na beirada das cadeiras, como mariposas lutando para sair dos casulos. Será que ela nunca ia deixar que eles voassem?
— Muito bem, meninos, agora é sua vez… Se vocês quiserem ir…
Eles não lhe deram a menor chance de mudar de ideia. Já estavam quase alcançando o final do campo antes que ela chegasse à metade da frase.
Os dois primeiros a chegar lá fora começaram a riscar o chão com a ponta do pé, para marcar a linha de chegada. O chão tinha sido encharcado por várias chuvas passadas, e depois tinha endurecido com a estiagem do verão, de modo que eles tiveram de desistir de traçar a linha com a ponta dos tênis e trataram de riscá-la com um pedaço de pau.
Os meninos da 5ª série, ardendo de impaciência com a nova importância que acabavam de adquirir, davam ordens aos da 4ª a torto e a direito, enquanto os menores tentavam se meter pelo meio deles sem chamar a atenção.
— Quantos de vocês vão correr? — perguntou Gary Fulcher.
— Eu…
— Eu…
— Eu…
Todo mundo gritava ao mesmo tempo.
— É gente demais. Ninguém da 1ª, nem da 2ª nem da 3ª série… a não ser, talvez, os dois primos Butcher e Timmy Vaughn. O resto só vai atrapalhar.
Vários ombros deram mostras de desânimo, mas de qualquer modo os meninos menores obedeceram e recuaram.
— Muito bem. Isso nos deixa com vinte e seis, vinte e sete… fiquem quietos… vinte e oito. Confere, Greg? — perguntou Fulcher a Greg Williams, que parecia a sombra dele.
— Exato. Vinte e oito.
— Muito bem. Então, vamos fazer as eliminatórias, como sempre. Dividimos em quatro grupos. Primeiro, correm os do grupo um. Depois, os do dois…
— A gente já sabe, chega…
Todo mundo estava impaciente com Gary, que tentava a todo custo parecer o Wayne Pettis desse ano.
Jess estava no grupo quatro, o que para ele era ótimo. Estava louco para correr, mas na verdade não se incomodava de ter a oportunidade de ver como estavam os outros, desde a primavera. Fulcher estava no grupo um, claro, porque tinha começado tudo com ele mesmo. Jess conteve um sorriso pelas costas de Fulcher, e enfiou as mãos nos bolsos de suas calças de veludo cotelê, até o dedo médio da mão direita se meter num buraco que havia no fundo.
Gary ganhou a primeira bateria com a maior facilidade e ainda ficou cheio de fôlego para dar ordens na organização da segunda. Alguns dos meninos menores saíram de perto e foram brincar de escorregar no barranco que ficava entre o terreno mais alto e o mais baixo.
Pelo canto do olho, Jess viu que alguém vinha descendo e chegando perto. Virou as costas e fingiu que estava se concentrando nas ordens que Fulcher gritava.
— Ei! — Leslie Burke tinha chegado junto dele.
Jess chegou ligeiramente para o lado.
— Ahnnn…
— Você não vai correr?
— Mais tarde.
Quem sabe, se ele não olhasse para ela, a menina ia embora, voltava ao terreno lá de cima, que era o lugar dela.
Gary mandou Earle Watson dar o sinal de partida. Não havia ninguém com muita velocidade naquele grupo. Jess ficou observando as costas curvadas e as camisas dos corredores esvoaçando.
Na linha de chegada, estourou uma briga entre Jimmy Mitchell e Clyde Deal. Todo mundo foi ver de perto. Jess estava consciente de que Leslie Burke continuava grudada no cotovelo dele, mas tomou o maior cuidado para não olhar na direção dela.
— Clyde — decretou Gary Fulcher. — Quem ganhou foi Clyde.
— Eles empataram, Fulcher — protestou um aluno da 4ª série. — Eu estava parado bem aqui e vi.
— Clyde Deal ganhou.
Jimmy Mitchell estava apertando a mandíbula. De raiva.
— Quem ganhou fui eu, Fulcher. De onde você estava, nem dava para ver nada.
— O vencedor foi Deal — insistiu Gary, ignorando os protestos. — Estamos perdendo tempo. Agora o pessoal do grupo três. Vamos logo.
Os punhos de Jimmy se ergueram:
— Não é justo, Fulcher.
Gary virou as costas e saiu caminhando em direção à linha de largada.
— Deixa os dois disputarem a final… Que mal faz? — disse Jess, em voz alta.
Gary parou de andar e se virou para encarar Jess. E, em seguida, olhou para Leslie Burke. Com a voz destilando sarcasmo, zombou:
— Só falta agora você querer deixar alguma garota correr também…
O rosto de Jess ficou quente. Mas, como quem não se importa, ele só disse:
— Claro. Por que não?
Virou-se para Leslie e perguntou:
— Quer entrar na corrida?
— Claro — confirmou ela, sorrindo. — Por que não?
— Você não tem medo de disputar a corrida com uma menina, não é, Fulcher? Ou será que tem?
Por um minuto, achou que Gary ia enchê-lo de socos, e ficou tenso, esperando. Não podia deixar Gary desconfiar que estava com medo e que sentia um aperto na garganta. Mas o outro não o atacou e, em vez disso, saiu num passo apressado, dando ordens aos meninos do grupo três, que se preparavam para a disputa.
— Você pode correr no grupo quatro, Leslie — disse Jess, em voz bem alta, para ter certeza de que Fulcher tinha ouvido.
Depois, se concentrou nos corredores.
“Viu só”, disse a si mesmo, “você pode enfrentar um mandão que nem Fulcher. É só não esquentar a cabeça”.
Bobby Miller ganhou fácil no grupo três. Era o melhor na 4ª série, quase tão rápido quanto Fulcher. “Mas não é tão bom quanto eu, agora”, pensou Jess. Estava começando a ficar realmente animado. Não havia ninguém no grupo quatro que pudesse ganhar dele numa corrida. Mas, de qualquer modo, era bom ir logo dando um susto em Fulcher, e correr bem rápido naquela bateria de aquecimento.
Leslie se alinhou a seu lado, à direita. Ele chegou um pouquinho para a esquerda, mas parecia que ela nem tinha reparado.
Dado o sinal, Jess disparou. Sentia-se bem… até mesmo distinguindo o chão áspero nas solas gastas dos seus tênis velhos. Estava indo bem. Quase podia sentir o cheiro do espanto de Gary Fulcher diante de seu progresso. Os outros meninos gritavam, torciam, faziam mais barulho do que tinham feito nas outras baterias. Talvez estivessem todos notando como ele melhorara. Queria olhar para trás e ver onde os outros estavam, mas resistiu à tentação. Ia parecer convencimento. Concentrou-se na linha à sua frente. A cada passo, ela chegava mais perto. “Ah, Miss Bessie, se você pudesse me ver agora…”
Sentiu antes de ver. Alguém se aproximava, veloz. Automaticamente, fez mais esforço, deu mais impulso. Aí a forma chegou à sua visão lateral. E de repente, passou a sua frente. Ele se esforçou ainda mais, deu tudo. Estava quase sem fôlego, o suor escorria e entrava nos olhos. Mas de qualquer modo, percebeu o vulto. A calça desbotada e cortada cruzou a linha de chegada quase um metro antes dele.
Leslie se virou e olhou para ele com um sorriso amplo no rosto bronzeado. Ele tropeçou e, sem dizer uma palavra, começou a andar, quase correndo, de volta para a linha de partida. Esse era o dia em que ia ser campeão… ia ser o corredor mais veloz da 4ª e 5ª séries juntas, e nem ao menos conseguira ganhar a sua bateria.
Em nenhum dos extremos do campo se ouvia um grito, ou um “Viva!” sequer. Os outros meninos estavam tão chocados quanto ele. A gozação viria mais tarde, ele tinha certeza.
Mas, pelo menos, na hora, ninguém dizia uma palavra.
— Muito bem — Fulcher assumiu o comando de novo, tentando mostrar que continuava controlando a situação. — Agora os vencedores se alinham para a disputa final.
Andou em direção a Leslie e ordenou:
— Você já se divertiu. Agora pode correr e ir brincar amarelinha lá em cima.
— Mas eu ganhei a eliminatória — disse ela.
Gary baixou a cabeça, como um touro que fosse investir.
— Menina não pode brincar no terreno daqui de baixo. É melhor você ir lá para cima antes que alguma professora te veja.
— Mas eu quero correr — disse ela, tranquila.
— Tudo bem, já correu…
— O que é que está acontecendo, Fulcher? — perguntou Jess, com toda sua raiva vindo à tona, como se não pudesse ser controlada. — O que é que há? Está com medo de disputar com ela?
Fulcher ergueu o punho, ameaçador, mas Jess se afastou. Fulcher ia ter que deixá-la correr agora, ele sabia. E deixou.
Com raiva e resmungando, mas deixou.
E ela o derrotou. Chegou em primeiro lugar e virou seus olhos imensos e brilhantes para um bando de caras suadas e zangadas, com ar de idiotas.
O sinal tocou. Jess começou a atravessar o terreno de baixo, ainda com as mãos enfiadas nos bolsos, bem no fundo. Ela o alcançou. Ele tirou as mãos dos bolsos e foi andando mais depressa para a colina. Já se metera em encrenca demais por causa dela. Mas a menina apertou o passo, recusando-se a ser deixada para trás.
— Obrigada — disse.
— É? — disse ele, enquanto pensava “Por quê?”.
— Você é o único menino nesta porcaria desta escola em quem vale a pena a gente dar um tiro.
— Pois então, atire — disse ele.
No ônibus, naquela tarde, ele fez uma coisa que nunca pensara fazer. Sentou-se ao lado de May Belle. Era o único jeito de garantir que Leslie não ia se instalar ao lado dele. Deus do céu, aquela garota nem desconfiava que há coisas que simplesmente não se fazem.

Ficou olhando pela janela, lá para fora, mas sabia que ela tinha chegado perto e sentado logo ali, do outro lado do corredor.
Percebeu que ela tinha dito “Jess” uma vez, mas como o ônibus era muito barulhento, deu para fazer de conta que não tinha ouvido. Quando chegou a hora de descer, ele agarrou a mão de May Belle e a puxou para fora, o tempo todo consciente de que Leslie vinha bem atrás. Mas ela não tentou falar com ele de novo, nem os seguiu. Só saiu correndo para a velha casa dos Perkins.
Ele não conseguiu deixar de se virar para ver. Ela corria como se isso fizesse parte de sua natureza. Fez com que ele se lembrasse do voo dos patos selvagens no outono. Tão suave… A palavra “bonito” lhe veio à mente, mas ele a sacudiu para longe, e tratou de ir depressa para casa.


   Ponte para Terabitia-Katherine Paterson- Resenha


Titulo: Ponte Para Terabítia
Autora: Katherine Paterson


Sinopse: Jess Aarons, um garoto de 10 anos, passou o verão treinando para ser o campeão de corrida da escola. Na volta às aulas, é ultrapassado por uma aluna nova. Os dois tornam-se grandes amigos, e criam um reino imaginário chamado Terabítia, onde governam soberanos protegidos das ameaças e zombarias da vida cotidiana. Até que um dia, uma fatalidade os separa, e Jess precisa ser forte para enfrentar essa triste realidade.

Resenha: Este livro conta a história de Jess, um garoto que sonha em ser o campeão de corrida da escola. Ele e sua familia mora em uma propriedade rural, e é lá que ele treina durante todo o verão, acordando toda manhã para se dedicar ao seu esporte favorito.

Tudo está indo bem, quando de repente chega na escola uma aluna nova e que ainda vencerá Jess e Gary (rival de Jess) na corrida. O garoto não se conforma e fica corroendo uma raiva e uma insatafação dentro de si. Mas Leslie, a aluna nova, não se afastará de Jess, pelo contrário, nascerá uma grande amizade no meio dessa "rivalidade". Jess e Leslie se tornarão grandes amigos e juntos vão construir Terabítia, usando uma parte inexplorada de um bosque perto de suas casas.

Os dois reinarão em Terabítia, e viverão aventuras usando apenas a imaginação. A amizade de Leslie e Jess se tornará mais forte a cada dia, e uma cumplicidade irá se fortificar mais e mais. Ponte para Teabítia é um dos livros mais lindos que eu já li. E um dos únicos que me fez realmente chorar, principalmente no final.

Katherine tem uma escrita mega envolvente e viciante, e que te fará ler  o livro em menos de três dias. Ela transmite perfeitamente a inocencia de uma criança, e mostra o que é uma amizade de verdade. Já faz um tempo que li esse livro e decidi que seria muito interessante se eu postasse a resenha aqui. Ponte para Terabítia me fez refletir por horas, e me deu mais forças para sonhar e acreditar que amizades verdadeiras exitem.

É um livro muito pequeno, mas que tem um siginificado e uma mensagem enorme. Vale muito a pena gastar algumas horas o lendo. É uma história linda!

“Feche os olhos, mas mantenha a mente bem aberta”

Disponível: http://www.culturaliteraria.com/2013/08/resenha-ponte-para-terabitia.html.Acesso:08.08.16


                         Katherine Paterson 

Katherine Paterson(China , 31 de outubrode 1932) é uma premiada escritora de literatura infantil dos Estados Unidos. Seu livro premiado '' Ponte para Terabítia'' foi adaptado em duas ocasiões, para atelevisão e para o cinema, em 1985 e 2007. Vida PessoalNascida na China, no dia 31 de outubro de 1932, Katherine é filha de missionários. Eles tiveram que fugir da China em decorrência da guerra contra Japão, estabelecendo-se nos Estados Unidos em 1940. Obteve um grau em inglês no King College em BristolTennessee. Depois passou um ano em uma escola rural da Virginia antes de se graduar. Posteriormente obteve o mestrado e trabalhou quatro anos como missionária no Japão. Ela e seu marido, Juan, têm quatro meninos (dois biológicos e dois adotados) e sete netos.Obra:Sua primeira novela foi escrita enquanto tomava um curso de escritura criativa para adultos. Entre alguns dos prêmios que tem recebido se encontram: o Prêmio Nacional do Livro (Master Puppeteer, 1976; The Great Gilly Hopkins, 1979); a medalha Jhon Newbery (Bridge to Terabithia, 1977; Jacob Have I Loved, 1981); o Prêmio Scott Ou‘Dell por Ficção Histórica (Jip, His Story); o Prêmio Hans Christian Andersen (body of work, 1998); e o Prêmio Memorial Astrid Lindgren (2006). Katherine Paterson acha que os livros infantis devem ocupar-se de temas contemporâneos e realistas, por isso sua obra se vê caracterizada por temas difíceis como a morte de um ser querido. Paterson é vice-presidenta da Aliança Nacional de Livros e Literatura Infantil, uma organização sem ânimo de lucro que aboga pela instrução, a literatura e as bibliotecas.Ponte Para Terabítia Sua novela mais conhecida no Brasil, Ponte para Terabítia tem sido adaptada em duas ocasiões ao cinema: uma em 1985 e outra em 2007. A versão 2007 é uma co-produção de Disney e Walden Média. Um dos produtores e roteiristas para a versão 2007 é um dos filhos de Paterson: David L. Paterson, cujo nome aparece na dedicatória do livro.Ponte para Terabítia (Bridge to Terabithia) é uma das mais conhecidas obras da escritora Katherine Paterson. No Brasil esse livro é distribuído pela editora Salamandra com tradução de Ana Maria Machado.Este livro conta a história de Jess Aarons que tem 10 anos e acaba de ingressar na 5º série e o que mais deseja na vida é ser o campeão de corrida da escola. Bem agora, quando tem todas as chances de ganhar, tinha que aparecer Leslie Burke, uma novata na vila - e, ainda por cima, menina! - para desafiá-lo e, pior que isso, ganhar dele? Mas jess não sabe que Leslie vai lhe propor desafios muito maiores que ganhar ou perder uma corrida. Pouco a pouco, ele vai se afeiçoando a essa menina, tão diferente das outras de sua comunidade rural. ate que, Juntos, os dois criam um reino mágico e solene, chamado Terabítia. onde governam soberanos, protegidos das ameaças e zombarias da vida cotidiana. Neste livro Katherine paterson narra uma história de intensa amizade e coragem, que vai cativar a todos.

Disponível: https://pt.wikipedia.org/wiki/Katherine_Paterson. Acesso.08.08.16.

                Lídia - Katherine Paterson


Não era mais do que uma escrava, pensava Lídia. A quinta endividada teve de ser alugada a um vizinho, e ela e o irmão tiveram de ser empregados. Estaria o fim próximo, como a mãe dissera quando partira com as bebés depois de o urso esfomeado ter entrado na sua casa da quinta do Vermont? Naquele Inverno de 1843, as duas crianças haviam ficado entregues a si mesmas. Se, pelo menos, o pai voltasse e pusesse tudo de novo no lugar! A promessa de uma nova vida melhor acaba por pôr Lídia a caminho de Lowell, Massachusetts. Como empregada de uma fábrica vai ganhar um salário e ser livre. Pouco importa ter de viver num lar apinhado e de suportar o barulho ensurdecedor dos teares e o ar cheio de pó que traz consigo febres e tosses dilacerantes. Apesar do encarregado ameaçador, Lídia trabalha horas sem fim para poder pagar a dívida e recuperar a quinta que tanto ama.


Por fim, a campainha do fim da tarde soou e o senhor Marsden puxou a corrente, dando o dia por terminado. Diana caminhou com ela até ao lugar onde as raparigas penduravam os chapéus e os xailes e estendeu-lhe os dela.
— Vamos esquecer o regulamento esta noite — disse ela. — Já foi um dia demasiado longo.
Lídia concordou. O dia anterior parecia um passado muito distante. Já nem se recordava da razão por que o regulamento lhe parecera tão importante.

Perdera o apetite. O simples cheiro da sopa revolvia-lhe o estômago – feijão com gordura de porco e pão com queijo vermelho, batatas fritas e, claro, panquecas com molho de maçã, pudim indiano com creme e bolo de ameixa para sobremesa. Lídia mordiscou o pão e engoliu-o com chá a ferver. Como podiam as outras comer com tanto apetite com o barulho dos pratos e os gritos da conversa? Ela só desejava chegar ao quarto, tirar as botas, massajar os pés cansados e pousar a cabeça dorida. Enquanto as outras raparigas puxavam as cadeiras e as colocavam de modo a formar pequenos círculos, Lídia afastou-se da mesa e arrastou-se pelas escadas acima.

Betsy já lá estava com o eterno livro na mão. Riu-se ao ver Lídia.

— O primeiro dia em cheio! E até hoje consideravas-te uma rapariga do campo, valente, que podia aguentar tudo, não era?

Lídia não fez esforço para lhe responder. Deixou-se simplesmente cair na cama de casal, tirou as botas agressoras e massajou os pés inchados.

— Se tivesses um par mais velho... — a voz de Betsy era quase meiga — mais largo e macio...

Lídia abanou a cabeça. No dia seguinte calçaria as botas de Triphena sem as acolchoar. Ainda estavam tesas por causa da viagem e não seriam boas para o ir e vir das refeições mas, pelo menos, os pés teriam espaço para inchar.

Despiu-se, vestiu a camisa de noite velha e enfiou-se debaixo da roupa. Betsy olhou para ela.

— Tão cedo para a cama?

Lídia só teve forças para abanar de novo a cabeça. Era como se simplesmente não tivesse forças para falar. Betsy sorriu de novo. "Ela não se está a rir de mim", percebeu Lídia de repente. "Recorda como foi com ela".

— Queres que leia para ti? — perguntou Betsy.

Lídia agradeceu com a cabeça, fechou os olhos e virou-se de costas para a luz da vela.

Betsy não deu explicações sobre o romance que estava a ler, limitou-se a começar a ler em voz alta onde ela própria parara. Embora a cabeça de Lídia ainda estivesse entupida de fibras e carregada de barulho, ela tentou seguir o fio à história.

A criança estava num asilo de pobres, parecia, e tinha fome. Lídia sabia bem o que era uma criança com fome. Rachel, Agnes, Charlie – todos tinham sentido fome no ano do urso. O rapazinho da história, com fome, estendera a tigela ao encarregado do asilo e dissera:

— Por favor, senhor, quero mais.

E por causa disso, o encarregado – ela podia imaginar a sua boquinha vermelha aberta de horror - por causa disso, o encarregado gritara com a criança. Na sua imaginação, o pequeno Oliver Twist era igual a Charlie. O cruel encarregado gritara e arrastara a criança para diante de um agente. E por que crime? Pelo crime monstruoso de querer comer mais.

— Este rapaz há-de acabar na forca — profetizara o agente. — Sei que será enforcado.

Lutou contra o sono, ávida de cada palavra. Não tivera apetite para a óptima refeição servida no andar de baixo, mas agora conhecia uma espécie de fome que não sabia que existia. Tinha de descobrir o que acontecera ao pequeno Oliver. Seria ele realmente enforcado só porque desejava mais papa?

Abriu os olhos e fixou Betsy que estava absorvida na leitura. Depois Betsy sentiu o seu olhar e levantou os olhos do livro.

— É uma história maravilhosa, não é? Uma vez vi o autor — o senhor Charles Dickens. Visitou a nossa fábrica. Deixa ver... eu já estava na sala da fiação — deve ter sido em...

Mas Lídia não queria saber de autores nem de datas.

— Não pares de ler a história, por favor — pediu ela.

— Nada receies, Lídia. Não interrompo mais — prometeu Betsy, e continuou a ler, embora a voz fosse denotando fadiga, até tocar a campainha do recolher. Marcou o livro com uma fita do cabelo.

— Até amanhã à noite — sussurrou ela, enquanto os pés de um exército de raparigas martelavam nas escadas.

No dia seguinte, na fábrica, o barulho continuou estridente e os pés enfiados nas velhas botas de Triphena incharam do mesmo modo; contudo, de vez em quando, ela dava por si a cantarolar. “Por que estou de repente tão satisfeita? Que coisa maravilhosa me está a acontecer?” E então recordou-se. À noite, depois do jantar, Betsy leria para ela. Ela estava, claro, um pouco apreensiva por Oliver que na sua cabeça se confundia com Charlie. Mas havia uma antecipação deliciosa, como açúcar a dissolver-se na boca. Ela precisava de saber o que lhe iria acontecer, como se história iria desenrolar.

Diana notou a mudança.

— Estás a adaptar-te melhor do que eu esperava — disse ela.

Mas Lídia não lhe explicou. Não sabia lá muito bem como explicar que não era tanto por estar mais adaptada à fábrica, mas porque descobrira como escapar à sua opressão. As folhas coladas na janela e os gerânios no parapeito deviam ter o mesmo efeito para outras raparigas, pensou. Mas, no seu caso, era uma história.

À medida que os dias se transformavam em semanas, ela tentava não pensar como era gentil da parte de Betsy ler para ela. Havia noites, claro, em que ela não podia ler, quando havia compras a fazer ou roupa a lavar. Aos sábados à tarde saíam duas horas mais cedo e Amélia apropriava-se de Lídia e Prudence para longos passeios à beira-rio até ficar escuro. Betsy, naturalmente, fazia o que lhe apetecia, independentemente de Amélia. Aos domingos, Amélia arrastava a relutante Lídia para a igreja. A princípio, Lídia receou que Betsy continuasse a leitura sem ela, mas Betsy esperou até à tarde de domingo, quando Amélia e Prudence se encontravam no andar de baixo a escrever à família, e prosseguiu a história a partir do ponto em que a deixara na sexta-feira anterior.

Só ao fim de várias semanas é que Lídia percebeu que o livro era da biblioteca domiciliária e que o empréstimo custava a Betsy cinco cêntimos por semana. Se estivesse sozinha, Betsy lê-lo-ia muito mais depressa, Lídia tinha a certeza. Por muito que detestasse gastar dinheiro no primeiro dia em que recebeu, Lídia insistiu em dar dez cêntimos a Betsy para ajudar a pagar a empréstimo de Oliver. Betsy riu-se, mas aceitou. Também ela estava a juntar dinheiro, confessou a Lídia, pedindo-lhe que não contasse, para pagar a sua educação. Havia uma universidade no Oeste, em Ohio, que aceitava mulheres – uma verdadeira universidade e não uma escola de mulheres.

— Mas não contes à Amélia — disse ela, deixando a voz voltar ao seu habitual tom irónico. — Ela acharia que não é próprio de uma senhora ir para Oberlin.

Pareceu estranho a Lídia que Betsy se ralasse com a opinião de Amélia. Mas Lídia, que nunca desejara ser considerada uma senhora, dava muitas vezes por si a perguntar:

— Que pensará Amélia? — e a censurar-se por fazer isto ou aquilo devido a esse pensamento.

Depois, depressa de mais, o livro chegou ao fim. Parecia que tinha voado e havia tanto, principalmente no início – quando Lídia estava demasiado cansada e, por muito que se esforçasse, não conseguia ouvir com atenção –, havia tanto que necessitava de ouvir de novo. Na verdade, precisava de ouvir tudo de novo, mesmo as partes mais horríveis, o assassinato da querida Nancy e a morte de Sikes.

Desejava ter coragem para pedir a Betsy que lesse mais, mas não tinha. Betsy oferecera-‑lhe horas e horas do seu tempo e voz. E, além disso, com Julho a chegar, as três companheiras faziam planos para ir a casa. Esta palavra era como uma pancada no peito. Casa. Se ao menos também ela pudesse ir. Mas assinara um contrato por um ano com a Corporação. Se partisse nem que fosse só para ver a cabana e visitar Charlie de passagem, perderia o seu lugar.

* * * *


Julho estava quente como Diana dissera deselegantemente. Com relutância, Lídia gastou um dólar num vestido mais fresco, visto que o que tinha era demasiado quente. O passo seguinte foi ir até à biblioteca onde requisitou Oliver Twist.

Desta vez ia lê-lo sozinha. Não lhe ocorreu que estava a estudar por si, enquanto decifrava penosamente as palavras que haviam fluído como um rio da boca de Betsy. Estava tão desejosa de ouvir de novo a história que, embora cansada depois das treze horas de trabalho na sala dos teares, deitava-se a transpirar na cama, soletrando baixinho os sons da narrativa do senhor Dickens.

Dava graças por estar sozinha no quarto. Não havia ali ninguém para se rir dos seus esforços ou para se oferecer para a ajudar. Não queria ajuda. Não desejava partilhar a sua leitura com ninguém. Estava determinada a aprender tão bem, que fosse capaz de um dia ler o livro em voz alta para Charlie. E como ele ficaria espantado! A sua Lídia, tão instruída? Ia ficar orgulhosíssimo.

Durante o dia nos teares, ela revolvia na cabeça os bocados de história que decifrara na noite anterior. Então ocorreu-lhe que podia copiar as páginas, colá-las na parede e lê-las sempre que tivesse uma pausa. Não havia muitas pausas agora que manobrava três teares, mas ela colou a folha num deles e podia olhar para ela enquanto trabalhava.

Julho já ia a meio quando ela tomou a importante decisão. Uma bela noite, assim que o jantar terminou, vestiu o vestido mais quente que era mais bonito do que o leve de Verão, pôs o chapéu, calçou as botas novas e saiu para a rua. Tremia quando chegou à porta da loja, mas abriu-a. Uma campainha soou e um cavalheiro que estava ao fundo, sentado num banco por trás do balcão, olhou por cima dos óculos.

— Em que posso servi-la, menina? — perguntou educadamente.

Ela tentou controlar a tremura da voz, mas não foi capaz.

— Eu, eu vim comprar o livro — disse.

O cavalheiro deslizou do banco e esperou que ela continuasse.

Mas Lídia já fizera o discurso que ensaiara. Não preparara mais palavras. Finalmente, ele inclinou-se para ela e disse num tom de voz extremamente simpático:

— Que livro deseja, menina?

Que estúpida ela lhe deve ter parecido! A loja tinha filas e filas de livros, centenas, talvez milhares de livros.

— O, o Oliver Twist, se faz favor — conseguiu balbuciar.

— Ah — disse ele — o senhor Dickens. Uma escolha admirável.

Mostrou-lhe várias edições, algumas impressas em papel barato, com capa de papel, mas ela só queria uma. Era belamente encadernada a couro com letras douradas na lombada. Ia custar todo o seu dinheiro, estava mesmo a ver. Talvez nem tivesse que chegasse. Olhou assustada para o simpático empregado.

— São dois dólares — disse ele. — Quer que lho embrulhe?

Ela estendeu-lhe dois dólares de prata que tirou da bolsa.

— Sim — disse suspirando de alívio — sim, muito obrigada.

E apertando o seu tesouro contra o peito, saiu a correr da loja e teria corrido todo o caminho até casa, se não fosse ter reparado que as pessoas paravam a olhar para ela.


Katherine Paterson
Lídia
Porto, AMBAR, 2001
Excertos adaptados

sábado, 11 de junho de 2016


"Se eu fosse eu"
Clarice Lispector

“O que eu sinto eu não ajo.
O que ajo não penso.
O que penso não sinto.
Do que sei sou ignorante.
Do que sinto não ignoro.
Não me entendo
E ajo como se
Me entendesse.”   
                          Clarice Lispector
   
                         Bem no Fundo

           Paulo Leminski
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora 
e outros pequenos probleminhas.



Apagar-me


Apagar-me 
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

Eu

Eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora 
quem está por fora
não segura
um olhar que demora 
de dentro de meu centro
este poema me olha



Amor Bastante
Quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante basta um instante
e você tem amor bastante um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

Ali


ali

ali
se 
se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse 
se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce 
ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece.



Um homem com uma dor

Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante.


Acordei Bemol

Acordei bemol
tudo estava sustenido 
sol fazia
só não fazia sentido.


um bom poema leva anos
 cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,
eu e você, caminhando junto.


nunca cometo o mesmo erro duas vezes
 já cometo duas
 três
quatro
cinco
seis
até esse erro aprender que só o erro tem vez.



      A Bola
Luiz Fernando Veríssimo
O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro.
Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.
O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse "Legal!". Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
- Como é que liga? - perguntou.
- Como, como é que liga? Não se liga.
O garoto procurou dentro do papel de embrulho.
- Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
- Não precisa manual de instrução.
- O que é que ela faz?
- Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.
- O quê?
- Controla, chuta...
- Ah, então é uma bola.
- Claro que é uma bola.
- Uma bola, bola. Uma bola mesmo.
- Você pensou que fosse o quê?
- Nada, não.
O garoto agradeceu, disse "Legal" de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.
O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
- Filho, olha.
O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.